o fim do meu primeiro namoro não foi terrível ou traumático. não foi terrível ou traumático pra mim - que fique claro - pois fui eu quem impôs um fim, mas tenho a impressão de que parti o coração do rapaz em diversos pedacinhos. não tive tato nem psicologia, mas o que sabia eu? também nunca tinha terminado um namoro antes, as regras não me foram passadas, fiz como pude e se um dia estiver nas minhas mãos terminar outro namoro já sei o que não fazer.
começamos a namorar na escola de inglês que frequentávamos. ele era bonitinho, loiro, olhos azuis, pele branca como a neve e nariz grande o que lhe dava um ar mais adulto equilibrando o resto do conjunto tão angelical. era em todos os sentidos um bom rapaz, educado, bom aluno, boa aparência, meus pais gostavam dele e os dele gostavam de mim.
nos divertimos bastante juntos, partilhávamos de um espírito de aventura que nos levou a escalar montanhas, fazer trilhas, acampar e tudo ia muito bem até um dia quando acordei de manhã e pra mim ele tinha virado um chato. não sapo, chato mesmo. seu gosto musical ingênuo, o fato dele seguir todas as regras e ter um gps (na época ninguém nem sabia o que era um gps) para fazer trilhas, toda aquela gentileza e educação e tudo que era qualidade tinha virado babaquice.
uma noite, depois de deixá-lo em casa meus amigos que estavam no carro me olharam horrorizados e perguntaram por que eu tratava o pobre menino tão mal. até aquele momento eu não tinha me dado conta de que eu o tratava mal. ele fazia de tudo pra me agradar e eu abusava, é verdade. fazia ele passar horas andando de carro com meus amigos para fumarmos maconha (ele não fumava), dava a entender que todas as suas opiniões e comentários eram idiotas, infundados, covardes ou todos três, fugia do máximo de beijos, abraços e carinhos que pudesse e jamais lhe dirigia uma palavra doce.
do alto da minha inexperiência não percebi nada disso antes dos meus amigos ficarem com pena dele e me confrontarem. naquela noite fui dormir tarde pensando sobre tudo isso e decidi terminar o namoro, eu não estava mais apaixonada e ele não merecia isso.
ainda sem saber como pôr um fim ao namoro sem piorar a imagem de megera que já estava se formando ao meu redor fui até a casa do namorado maltratado disposta a terminar tudo no mesmo dia. fui recebida com uma surpresa. meu namorado e seus pais, ambos, estavam de pé na sala, seu pai tinha na mão um envelope e no rosto um grande sorriso - estranhíssimo, ele era um homem muito sério e aquele deve ter sido o primeiro sorriso dele que eu vi.
a cena toda armada e a família me expõe os fatos que iriam me colocar numa posição bastante difícil. o aniversário dele estava chegando, o pai tinha milhagem acumulada:
- resolvemos dar de presente pra vocês duas passagens para florianópolis, pra vocês aproveitarem bastante!
êêê, meu sorriso não podia ter saído mais amarelo. o que fazer? seria melhor terminar tudo ali na frente dos pais dele ou em florianópolis, em alguma praia bem linda, depois? eu não aguentava mais, eu tinha virado um monstro e só queria acabar com tudo aquilo.
mas era assim, eu tinha que ir, as passagens já estavam compradas, vi meu nome escrito nela, todos estavam felizesm o aniversário dele estava chegando, eu ia fazer um último esforço e ir passar quatro dias em florianópolis com tudo pago e tentar ser legal.
a viagem foi difícil, eu tentando evitá-lo - até fiz uma tatuagem para escapar por algumas horas - me sentindo culpada, tentando não ser muito má, só conseguia pensar que não queria estar ali com ele, sentia nojo, não sei se dele ou de mim mesma e na volta nosso avião atrasou inacreditáveis 7 horas.
uma semana depois de voltarmos terminei o namoro simplesmente dizendo que não estava mais a fim e não atendi mais seus telefonemas.
anos depois quando terminaram comigo pela primeira vez pensei nesse primeiro namorado e me senti mal por ter sido tão horrível, mas eu já não sabia por onde ele andava e nunca me retratei.
1.9.09
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1 comentários:
Gostei do texto-confissão. Na verdade, o único namoro que eu terminei foi o único que eu tive, com o Paulo. Foi tenso terminar com ele, afinal ficamos seis anos juntos, mas às vezes é necessário fazer o outro sangrar. Nós bem sabemos como dói, mas é mais fácil se recuperar de um amor que sangra do que de um amor que termina na paz. Acredite....
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