3.9.09

a história desconhecida do que se perdeu

talvez esse não seja o melhor título pois o que se perdeu eu nunca mais vi, sei da história até o momento do desaparecimento e não mais. há também o fato de que quero incluir aqui tudo aquilo que se quebrou e o que foi conscientemente jogado fora.
falo de todos os objetos - papéis, pratos, roupas, coisas em geral - que guardamos em casa na esperança de um dia eles nos serem úteis ou reavivarem memórias preciosas e que no eventual momento da mudança perseguem um de quatro destinos diferentes:
1. são embrulhados, encaixotados, transportados e mantidos.
2. são embrulhados, encaixotados e em algum momento perdidos.
3. são mal embrulhados, encaixotados, no momento do transporte quebrados e por isso perdidos.
4. não se qualificam como parte do novo futuro e são simplesmente jogados fora.
em minha abundante experiência com mudanças (para alguém que nem filho de militar é) já vi muito de tudo isso.
é sempre uma difícil missão selecionar o que vai e o que fica e o único método é dividir o trabalho entre embrulhar, encaixotar e transportar pelo valor útil/sentimental do objeto, se o resultado final for menor que zero está qualificado (talvez os que atingirem algo em torno de 0.9 também possam ser incluídos se você acha difícil se desfazer de coisas), caso contrário o escuro interior de um grande saco preto o espera.
como já disse, há aquilo que se classificou e foi mas chegou quebrado, saco preto pra esses também, talvez até algumas lágrimas e sempre culpa e o pensamento "eu não devia ter economizado no plástico bolha".
não me é possível tocar nesse assunto sem me lembrar de um episódio específico. episódio esse que tomou como cenário o longo e esburacado caminho entre a bahia e são paulo. mudança com toda a família, enchemos uma carreta que engatamos ao potente e lindo opala azul que tínhamos na época. nas ferragens que ligavam a carreta ao carro encaixamos uma cadeira de balanço (que já estava na família há tempos e não podia ficar para trás). o conjunto todo, assim montado, produzia um efeito quase-cômico, algo entre uma diligência do velho oeste e o carro da família do filme férias frustradas.
pé na estrada e tudo correndo bem, até se considerarmos os dois pneus furados no caminho porque o carro estava muito pesado e a borracha raspava a lataria.
ao fim da longa jornada através de quatro estados pudemos desmontar a diligência e avaliar as perdas e danos. na bagunça das caixas meu irmão e eu nos demos conta de que o tabuleiro do WAR estava lá, os dados também, mas todos os exércitos haviam desaparecido. batalhões inteiros de todas as cores foram sendo despejados pela estrada a cada buraco, desde a bahia até são paulo os valentes soldados ficaram pelo chão à mercê dos pneus, uma tragédia.
nessa mesma mudança muitas outras coisas também se perderam por causa do excesso de peso no pouco espaço da carreta. aprendemos uma lição.
mais recentemente me mudei de país, a mudança mais desafiadora, no sentido da logística da operação. em poucas palavras: não dá pra levar muita coisa. ouvi muitas histórias de pessoas que se mudaram para países distantes e mandaram tudo baratinho num container num navio. pra mim a realidade foi outra e um container num navio não é baratinho, mentira. eu tive direito a duas malas, vinte e três quilos cada. em resumo, pratiquei muito aquilo que os budistas chamam desapego, vendi o que pude e dei pros amigos o resto e o que sobrou espremi na malas. no final da experiência até me senti mais leve, mais livre por saber que eu podia carregar nos meus ombros (literalmente) tudo que era meu.
mais mudanças virão, eu sei, mais coisas vão entrar para essa história desconhecida, mas, pra ser honesta, o que me importa é que cada um desses objetos fez parte da minha história e essa eu conheço bem.

1 comentários:

Anonymous said...

já estou esperando a continuação desta história toda.

os soldados do WAR se perdendo pela estrada é muito cinematográfico, meu.
me lembrou de uma cena linda que tem no PURSUIT OF HAPPYNESS (sim, com Y). você viu este filme?

agora eu vou que vai passar Os Sonhadores na globo. ;-)

beijo,
fábio shiraga