31.8.09

turma de 2000

ficamos todos orgulhosos quando percebemos que éramos nós a turma de 2000. era o início de um novo século, um novo milênio e o futuro era nosso.
eu tinha 18 anos quando nos formamos na escola, 18 anos e nenhuma ideia do que o novo milênio trazia. me lembro da sensação de imenso alívio que senti quando tive certeza que passaria de ano e que nunca mais pisaria numa escola como aluna.
meus planos estavam traçados e certos, me mudaria pra são paulo por seis meses, enquanto fazia um curso de comissária de bordo, terminado o curso eu arrumaria um emprego numa companhia aérea e voaria ao redor do mundo, eu queria conhecer a europa (o que depois fiz, mas de outro jeito), ver o mundo e estar bem longe, o mais distante possível de são josé.
os primeiros meses de 2001 passaram sem que eu percebesse. pra mim aquele intervalo era apenas isso: um intervalo, tempo a matar antes do maravilhoso futuro chegar, aquele pelo qual eu vinha esperando desde o dia em que nasci.
minha amiga anna foi direto do fim da escola pro começo da faculdade e nos fins de semana viajava os poucos quilômetros - porém que distância! - entre são paulo e são josé me trazendo notícias do futuro. a vida estava em são paulo, tudo era possível, tudo era permitido. a liberdade, a diversão, vida própria sem mamãe e papai, eu mal podia esperar.
por dentro minha idéias e planos para quando eu me mudasse eram tão intensos que eu já os vivia como se estivesse lá. os buracos no estofado do carro do meu amigo jorginho refletiam os milhares de baseados que fumamos em companhia de outros jovens joseenses que, junto comigo, sonhavam em deixar aquele buraco. é quase triste pensar que a maiorida deles nunca conseguiu.
muitos baseados depois chegou a minha vez de subir os três degraus do grande pássaro marrom e avante pela via dutra alcançar aquilo tudo que já era meu.
fui recebida com alegria no apartamento que passei a dividir com minha melhor amiga anna e outra garota da nossa escola, julia. anna e eu dividíamos um quarto, jú ocupava o outro. era um apartamento bem localizado e não era pequeno porém alguns detalhes lhe vieram render o nome que até hoje usamos para nos referir a ele: caverna.
no espírito do agora-quem-manda-somos-nós-e-vamos-fazer-tudo-que-a-gente-quiser eu pintei um monstruoso olho no lado de dentro da porta da sala, bem por cima do olho mágico, na parede tínhamos um mural jeans com fotos 3x4 de todos os amigos, na geladeira mantínhamos um tupperware cheio de maconha de qualidade duvidosa e todas as noites compúnhamos canções que o mundo nunca teve a sorte de partilhar.
a vida em são paulo era tudo o que fora prometido, o que acabou se mostrando inadequado aos meus planos fui eu mesma.
nunca me tornei comissária de bordo; por ter problemas respiratórios fui barrada no exame médico. morei na caverna por mais alguns meses antes de entrar numa sequência de mudanças para outros apartamentos na mesma rua.
o futuro acabou não tendo nada a ver com o que planejamos mas somos ainda, e isso ninguém nos tira, a turma de 2000.

2 comentários:

Allan Kern said...

a gente faz os planos porque precisa de uma direção pra rumar, mas as coisas nunca saem conforme o planejado, né? sei que eu sou uma dessas 'pobres criaturas' que não conseguiu se libertar do cotidiano joselito, mas outra das lições que a gente aprende e que eu pude perceber nas entrelinhas, é que o timing é fundamental para que as coisas deem certo. se tu estivesse até hoje trabalhando como comissária, muita coisa seria diferente e não necessariamente de um jeito melhor. é assim comigo também. nós temos boas idéias para ótimos planos todos os dias, mas a coisa só fica real e palpável quando começa a amadurecer e se mostrar além do nosso controle. adorei tua 'literomania" e espero que continue mais e mais, e que toda essa carga de sabedoria acumulada se reflita em palavras e venha daí pra cá, de cá pra aí, e que passe pelos caminhos de todo mundo que saiba apreciar uma boa explosão literária.

Anana said...

Juro, fiquei emocionada =(